Como criar uma reviravolta convincente nas suas histórias

8 de fevereiro de 2019 0 Por Bolha Criativa
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Tempo de leitura: 4 minutos

Você provavelmente já foi pego de surpresa em um plot twist, aquela reviravolta no final da história que faz sua mente explodir. Mas isso só acontece se a história for convincente e a reviravolta não for forçada (quando o escritor tem a ideia repentina de fazer uma surpresa sem antes ter construído uma base para ela).

Neste artigo vamos dar algumas dicas rápidas e eficientes para criar uma reviravolta chocante usando o exemplo de um filme famoso justamente por conta de seu final: O Sexto Sentido. Portanto, se você ainda não assistiu, assista primeiro antes de ler o artigo (ou leia por sua conta e risco).

Mesmo que você não tenha assistido e saiba o segredo do final, a experiência de assisti-lo ainda será interessante, assim como se você já assistiu uma vez, terá uma segunda experiência curiosa.

Antes de começarmos, vamos falar um pouco de o Sexto Sentido, filme de terror psicológico dirigido e roteirizado por M. Night Shyamalan e lançado em 1999. Foi indicado a seis categorias no Oscar, incluindo melhor filme. Não espere muitos sustos e cenas violentas como nos filmes de terror: aqui o drama é bem mais presente do que o terror em si. Tem Bruce Willis e Haley Joel Osment como os protagonistas.

1º experiência com o filme

Ao assistir na primeira vez, você acompanhará (ou pensará) a seguinte história:

Malcolm Crowe é um psicólogo infantil de grande sucesso que numa noite de comemoração com sua mulher, é baleado por Vincent, um ex-paciente que o acusa de não tê-lo ajudá-lo. Nisso, ele se suicida.

Alguns meses depois, as coisas se complicaram na vida de Malcom. Sua carreira não está indo tão bem depois do incidente e seu relacionamento com a esposa está distante a ponto de ele acreditar que ela está o traindo.

Seu paciente da vez é um garoto problemático chamado Cole Sear, cujo relacionamento com a mãe era muito fechado. Mesmo com dúvidas sobre sua capacidade após Vincent, Malcom decide ajudar o menino, que afirma que consegue enxergar fantasmas. A princípio, Malcom acredita que o problema psicológico de Cole é grave demais e está acima de suas capacidades, a ponto de desistir de cuidar dele.

No entanto, ao ouvir as gravações de suas sessões com Vincent, ele percebe que sua situação é semelhante a de Cole e decide ir atrás do menino e o encoraja a ajudar os fantasmas. Cole ajuda uma menina que morrera envenenada ao descobrir que foi um assassinato e consequentemente, fica mais aberto para falar com sua mãe e ter mais confiança, revelando também seu segredo para ela.

Motivado por Cole, Malcom encerra seu tratamento com ele e parte para se reconciliar com sua mulher. Ao expor seus sentimentos, descobre que na realidade morrera ao ser baleado por Vincent e era um fantasma desde o início. Suas pendências na Terra era o trabalho inacabado com Vincent, que foi corrigido através de suas ajuda com Cole e demonstrar seu amor pela esposa, aceitando sua morte.

Criando as bases para a reviravolta

Malcom é um fantasma em praticamente o filme inteiro! Essa foi uma reviravolta que pegou (e pegará) todo mundo de surpresa ao assistir o filme pela primeira vez. Entretanto, ao assistir pela segunda vez, você descobrirá que o todo o roteiro foi construído cuidadosamente para você ser surpreendido e mais do que isso: convencido por conta da grande reviravolta.

O impacto não teria sido o mesmo se o roteirista tivesse simplesmente dito no final que que o personagem de Bruce Willis estava morto sem ter construído toda a história para que isso acontecesse. Portanto, ao escrever uma reviravolta o escritor deve construir as bases desde o início da história.

Pense que seu enredo é um grande quebra-cabeça que se montado por inteiro, revelará uma linda imagem. Todas as peças devem se complementar até montar a peça final que fará todo o sentido. Não adianta inserir uma peça que não faça parte e complemente as demais. Sim, existem reviravoltas péssimas (que merecem um artigo posterior).

O que não é o caso do Sexto Sentido. Vamos analisar o filme já sabendo da reviravolta final:

“Eu vejo gente morta… o tempo todo”.
  • Cole diz a Malcom que enxerga fantasmas o tempo inteiro e alguns são assustadores. Obviamente ele também estava se referindo a ele, por isso Cole tinha um pouco de receio de Malcom no início de seu “tratamento”, mas aos poucos vai perdendo esse medo. É convincente porque Cole não é tão aberto com as pessoas e é nisso que acreditamos quando assistimos o filme pela primeira vez.
  • Os fantasmas não sabem que são fantasmas, por isso Malcom cria uma realidade para sua vida, embora haja as seguintes particularidades que ele (e nós) não percebemos a princípio:
  • Após ser baleado, a única pessoa que Malcom interage diretamente é com Cole, que obviamente consegue enxergá-lo e falar com ele. Note que em todas as cenas em que Malcom está na frente de outras pessoas, não há diálogo ou simplesmente sua presença é ignorada.
  • Nas cenas com a esposa de Malcom, ele é completamente ignorado. Acreditamos na primeira vez que seja por conta do afastamento do relacionamento, principalmente a cena do restaurante e a possível “traição” da mulher dele.
  • Na cena na sala de estar na casa de Cole, Malcom fica frente a frente com a mãe dele e os dois não trocam nenhuma palavra. O diálogo a seguir em que ela tem com o filho, Malcom é completamente ignorado.
  • Perceba que Malcom aparece conversando com Cole em lugares e momentos que normalmente um psicólogo infantil não estaria, como o corredor da escola ou na igreja. Normalmente seria com uma hora marcada, não?
  • Malcom usa a mesma roupa no filme inteiro.
  • A montagem e edição do filme favorece mais o tempo psicológico de Malcom do que o tempo real em si.

Para fazer uma boa reviravolta basta dar pequenas pistas, detalhes que da primeira vez podem ser completamente ignorados, mas que revisitados numa segunda vez – ou simplesmente com a informação certa que o final fornece – façam absoluto sentido (com perdão no trocadilho).

É isso aí! Não tem filme melhor para exemplificar uma boa reviravolta do que o Sexto Sentido. É claro que todo o mérito será seu, basta encontrar a história e os pontos certos para explorar.

Se tiver mais uma dica, não deixe de expor nos comentários. Nos vemos nos próximos posts do Bolha Criativa. Até mais!